Imagem de destaque para artigo sobre o papel da tecnologia na sustentabilidade do campo. Descrição da imagem: homem branco agachado, em meio à uma lavoura, utilizando tablet. Atrás dele, vemos que a plantação está sendo irrigada. (Créditos: Shutterstock)

Sustentabilidade no campo: qual o papel da tecnologia?

Sustentabilidade no campo: qual o papel da tecnologia?

Sustentabilidade: o que você entende quando lê esta palavra?

Longe de ser apenas um termo da moda, sustentabilidade é um conceito complexo e que envolve a ideia de ser capaz de sustentar um cenário ou um sistema a longo prazo.

É justamente neste ponto que nasce a ideia de trabalharmos com um desenvolvimento sustentável. Em um contexto no qual os recursos naturais se tornam cada vez mais escassos, mas a demanda por produtos e o crescimento populacional só aumentam, é mais do que necessário refletirmos sobre o modo como consumimos e produzimos.

Hoje, no nosso blog, iremos trazer a discussão sobre sustentabilidade para o campo. Por que é importante é tratar do tema no meio rural? O que tem sido feito para desenvolver um setor agrícola mais sustentável? Como a tecnologia pode nos ajudar neste processo? Reunimos essas e outras questões no texto abaixo. Nos acompanhe!

Por que pensar em sustentabilidade no campo?

Pensar em sustentabilidade no campo é uma questão mais do que necessária para o momento que vivemos. Estamos falando de como aliar a produtividade agrícola com a conservação ambiental, garantindo que se consiga atender a uma demanda de alimentos cada vez maior.

Projeções da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) feitas em 2009 já mostravam que até 2050, devido ao crescimento da população mundial, será preciso aumentar a produção de alimentos em 70%.

Além do aumento da demanda por alimentos, também é preciso pensar na parcela população mundial que hoje passa fome. Estimativas também da FAO indicavam que em 2018, cerca de 820 milhões de pessoas em todo o mundo não possuíam acesso suficiente a alimentos. O número simboliza um aumento consecutivo de pessoas com fome no mundo por três anos seguidos, voltando a atingir os mesmos níveis de 2010-2011.

Como um dos países como maior produção agrícola em todo o mundo, o Brasil ocupa papel central nessa missão. Pelas suas extensões territoriais e abundância de recursos, o país é um dos poucos no globo que ainda poderá expandir suas fronteiras agrícolas com a a conservação dos seus biomas.

Uso e ocupação das terras no Brasil em 2017

(Créditos: Embrapa)

No entanto, além da crescente demanda por alimentos, o setor agropecuário também terá que lidar com os impactos das mudanças climáticas. De acordo com o estudo Visão 2030: o futuro da agricultura brasileira, produzido pela Embrapa em 2018, elas devem impactar o Brasil e a América do Sul com:

  • Extinção de habitat e de espécies, principalmente na região tropical;
  • Substituição de florestas tropicais por savanas e de vegetação semiárida por árida;
  • Aumento de regiões em situação de estresse hídrico, ou seja, sem água suficiente para suprir as demandas da população;
  • Aumento de pragas em culturas agrícolas.

Em 2016, na publicação Agricultura e Sustentabilidade: esforços brasileiros para mitigação dos problemas climáticos, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) destaca que é essencial para a agricultura brasileira se adaptar às mudanças climáticas esperadas para os próximos anos. Para isso, é necessário adotar ações que reduzam o impacto ambiental da atividade agropecuária, além de incorporar áreas degradadas e incentivar a integração da produção vegetal e animal.

A chave para alcançar isso envolve, necessariamente, a tecnologia. É a partir dela, em conjunto com o investimento em pesquisas e desenvolvimento de políticas públicas que será possível desenvolver sistemas agroalimentares mais eficientes e inclusivos, desde a produção até a distribuição dos produtos aos consumidores finais.

Como trazer mais sustentabilidade para o campo com o uso de tecnologias?

Agora que você viu a importância de trazer mais sustentabilidade ao campo, deve estar se perguntando: quais são as formas de fazer isso na prática?

Reunimos algumas iniciativas que contribuem para um agronegócio mais sustentável. Confira abaixo:

Agricultura digital

Você já deve ter ouvido falar no termo agricultura digital, certo?

Mas o que ele significa, você sabe dizer?

Já te adiantamos: ela tem tudo a ver com sustentabilidade no campo!

A chamada agricultura digital é um conceito que representa a busca por elevar as interações entre os elos das cadeias produtivas agrícolas. A ideia por trás dela é aplicar diferentes tecnologias de informação e comunicação para aumentar a produção de alimentos, fibras e energia com o uso de menos solo, água e insumos.

A agricultura digital tem a proposta de ser interdisciplinar e transversal, não limitando-se, como lembra o IPEA, a regiões, cultivos ou classe social. Com a união de diferentes áreas, técnicas e profissionais, além de aumentar a produtividade agrícola e conservar os recursos naturais, mais valor é agregado ao produto. Até mesmo no final da cadeia produtiva, há benefícios, levando mais qualidade e transparência quanto a origem e produção do alimento para o consumidor.

Sustentabilidade no campo: benefícios da agricultura digital (Fonte: Embrapa)
Benefícios da agricultura digital alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) (Créditos: Embrapa)

Digitalização

Se digitalizar o campo já era uma questão amplamente discutida no setor rural, ela ganhou ainda mais no contexto da pandemia do Covid-19.

O economista norte-americano Michael Kremer, um dos ganhadores do prêmio Nobel da Economia em 2019, declarou em participação no webinar Oportunidades para a agricultura digital na América Latina e no Caribe: resposta rápida à Covid-19 que a digitalização de serviços de extensão agrícola sé um elementos chave para o desenvolvimento da agricultura na América Latina.

No evento online, iniciativa do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Kremer chamou atenção para como a pandemia do novo coronavírus também está gerando uma crise de segurança alimentar. De acordo com o economista, o maior acesso a tecnologia no meio rural será ainda mais crucial no mundo pós-pandemia. É a partir dela, aliada a pesquisa científica e a educação que os produtores agrícolas poderão complementar seus conhecimentos tradicionais e se adaptar, mais facilmente, a diferentes realidades, decorrentes tanto das mudanças climáticas como, também, da modernização no campo.

Um dos principais pontos da digitalização no campo envolve o uso de smartphones — a agricultura móvel. Para Kremer, os celulares, por oferecerem mais mobilidade e serem mais acessíveis do que outros aparelhos, ajudam a diminuir as lacunas existentes em relação ao acesso à tecnologia no meio rural. Além disso, também possibilitam uma comunicação mais veloz, diretamente com o produtor.

Outro ponto de destaque em relação ao uso de smartphones no campo é com os aplicativos. Hoje, existe uma enorme variedade de apps voltados para o mundo agro. Um deles é o AgriQ Receituário Agronômico, que possui consulta fitossanitária gratuita e possibilita a emissão de receitas agronômicas sem uso de internet, com assinatura eletrônica.

Banner-landing-page-app-AgriQ

Internet das coisas 

A Internet das Coisas — ou Internet of Things (IoT) em inglês — é o termo que representa a interconexão de aparelhos com o envio de dados via internet.

No mundo do agronegócio, esta conexão criaria fazendas inteligentes, nas quais os processos de gestão e produção estariam integrados. Em uma união de serviços de TI e software, com adoção de Big Data (uso de dados estruturados e não estruturados para análises e construção de estratégias), é possível utilizar as ferramentas e técnicas de forma mais assertiva, economizando tempo, dinheiro e garantindo maior produtividade.

Na prática, como isso funcionaria? Um exemplo é o proposto na publicação Internet das Coisas (IoT) — inovação para o agronegócio, da Embrapa. Nela, os pesquisadores explicam que, no campo, essa conexão levaria a uma integração de tecnologias que monitoram o solo (umidade, níveis de nutrientes), culturas (crescimento, surtos de doenças) e equipamentos agrícolas (tanques, armazéns, máquinas, entre outros). Com a análise e cruzamento feita a partir dos dados coletados, consegue-se elaborar um uso mais personalizado e eficiente dos insumos e mão-de-obra, de acordo com a realidade da propriedade.

Apesar de uma integração nesses moldes ainda ser uma perspectiva para o futuro, devido a própria velocidade, segurança e acesso do meio rural aos serviços de telecomunicações, já existem tecnologias da Internet das Coisas sendo adotadas no agronegócio. Um exemplo é o uso de sensores sem fio no solo ou em tratores, que possibilitará um mapeamento de campo mais preciso e assim, um plantio mais personalizado das culturas.

Além da maior produtividade e um menor consumo de insumos por hectare, a IoT também vem com a promessa de, se adotada em grande escala, aumentar o abastecimento agrícola e manter os preços dos alimentos baixos por um longo períodos, o que interessa o setor agropecuário brasileiro. O governo federal não fica atrás — no ano passado, publicou o Decreto nº 9.854, que institui o Plano Nacional de Internet das Coisas.

Inteligência Artificial

Falar de agricultura digital envolve, necessariamente, também falar de Inteligência Artificial (IA).

Primeiro, vamos entender o que é este conceito. Criado em 1955 por John McCarthy, professor de matemática na Universidade de Dartmouth, inteligência artificial (IA) diz respeito a ideia de construir sistemas e mecanismos que simulem a capacidade racional humana. Com o desenvolvimento do reconhecimento de variáveis e de habilidades de análise, seria possível simular o raciocínio lógico de uma pessoa e aplicá-lo em diversas tecnologias e ferramentas.

De modo geral, os principais benefícios da adoção da inteligência artificial estão relacionadas à economia de tempo que se ganha com a automatização de tarefas e à aplicação desta tecnologia para análises e decisões mais inteligentes. No agronegócio, o setor também é favorecido deste modo. Um exemplo — e talvez o mais óbvio — é com a automação de máquinas, por meio da robótica, que não necessitam mais de operadores.

Outro é o uso de sistemas inteligentes para monitoramento e análise das lavouras. Com a inteligência artificial, os produtores conseguem ter acesso a uma ampla base de dados com diversas informações (como condições meteorológicas e uso de insumos) para ter melhores insights de como reutilizarem insumos, escolher melhores sementes e definir quais são as melhores culturas para determinada área.

Dentro da inteligência artificial no campo, estão incluídos o uso de drones, veículos aéreos não tripulados. Eles podem ser utilizados para diferentes funções, como análise da lavoura, com a detecção de pragas e doenças; pulverização agrícola; demarcação de plantio; e, até mesmo, vigilância da propriedade rural.

Em uma matéria da Forbes sobre o uso de inteligência artificial na agricultura (em inglês), até mesmo os chatbots  (programas que simulam uma conversa com um atendente humano, geralmente utilizado por empresas para responder dúvidas mais frequentes) também estão sendo utilizados no meio rural, ajudando agricultores com conselhos e recomendações para suas fazendas.

Agricultura de precisão (AP)

Já deu para perceber que trazer mais sustentabilidade para o campo envolve, necessariamente, trabalhar de forma mais assertiva, certo?

Esta é a premissa principal da agricultura de precisão. Com o uso de diferentes tecnologias e da inteligência artificial, o método estuda a variabilidade espacial da lavoura, de forma a trabalhar cada área do terreno segundo suas características específicas.

Aliada ao uso de diferentes tecnologias, a agricultura de precisão possibilita que sejam desenvolvidos sistemas de produção agropecuários mais sustentáveis. Isto acontece porque em todas as etapas, são utilizadas diferentes ferramentas e sistemas informatizados que coletam e analisam dados sobre solo, planta e clima. É a partir dessas informações que se elabora um manejo específico para cada talhão, com a definição de como deve ser o uso de diferentes insumos como fertilizantes, agrotóxicos, água, sementes, entre outros.

Com esse estudo realizado, é possível melhorar o manejo do solo, otimizar o uso de insumos e também trazer mais ganhos na produtividade e na qualidade da produção. Após a colheita, mais análises podem ser feitas, organizando-se um histórico de produtividade de cada área.

Bioinformática

A bioinformática é a convergência de duas áreas: a biotecnologia e a informática. A união vem da proposta da analisar um grande volume de dados — coletados por diferentes tecnologias, como as que citamos anteriormente — que levaria ao melhoramento genético de sementes e plantas.

A interpretação e avaliação dessas informações requerem o apoio da estatística, da matemática, da computação e de estratégias de aprendizagem de máquina, que em conjunto, serão utilizadas em estudos de interações gênicas. O objetivo é desenvolver produtos coma maior qualidade nutricional e segurança.

Zoneamento de risco climático

Pensar em iniciativas de sustentabilidade aliadas à tecnologia no campo não envolve apenas gadgets e máquinas high-tech. Existem outras ferramentas e técnicas mais simples e acessíveis que são exemplos da junção desses dois fatores.

Uma delas é o zoneamento de risco climático. A ferramenta, um modo de gerenciamento produtivo agrícola, foi desenvolvida pelo Mapa em cooperação com a Embrapa, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e outras instituições científicas brasileiras. A técnica consiste em definir se uma região é adequada ou não para o cultivo de uma cultura a partir da disponibilidade climática regional.

A aptidão da área para a cultura é feita a partir da análise de dados como:

  • Pluviosidade (volume de chuvas);
  • Temperatura;
  • Geoprocessamento: tecnologias que coletam e tratam de informações georreferenciadas, como Sensoriamento Remoto (SR) e o Sistema de Posicionamento Global (GPS, na sigla em inglês);
  • Imagens de satélite;
  • Índices específicos definidos para indicar a sensibilidade da cultura a eventos extremos, de acordo com as fases fenológicas críticas da planta.

Com a coleta desses dados, é definida a probabilidade de se obter safras satisfatórias com produtividade econômica mínima. A partir dessas informações, são feitos os mapas de risco, no qual as áreas, em diferentes âmbitos (municipal, estadual, federal etc), são classificadas de acordo com o sucesso que determinada cultura pode ter no local.

Blog-AgriQ-Zoneamento-de-Risco-Climático-Minas-Gerais
Zoneamento de risco climático para plantio de milho em Minas Gerais. Na imagem, há três níveis de risco de insucesso: 20% (verde); 30% (azul); e 40% (amarelo). (Créditos: Embrapa)

O zoneamento de risco climático foi uma ferramenta que deu tão certo que foi transformado em política pública. Desde 1997, o Conselho Monetário Nacional (CMN) concede acesso ao crédito rural com base na probabilidade de insucesso da cultura em uma determinada localidade. Se esta porcentagem for maior que 20%, não é repassado o valor para a área.

Integração produtiva

Um dos modos de trabalhar a sustentabilidade no campo é por meio da integração produtiva, na qual sistemas agrícolas, pecuários e florestais são integrados em uma única área.

De que forma isso pode ser feito? Por meio de diferentes formas de cultivo:

  • Cultivo consorciado: quando se cultiva simultaneamente duas ou mais culturas, que não possuem semeadura ou plantio na mesma época, em uma única área;
  • Cultivo em rotação: quando se alterna, de forma ordenada, o cultivo de duas culturas em um mesmo local e estação do ano;
  • Cultivo de sucessão: estabelecimento em sequência, de modo repetitivo, de duas ou mais culturas na mesma área durante um período igual ou inferior a um ano.

Assim, se garante que exista uma interação entre os componentes produtivos, o que gera benefícios ambientais e econômicos como:

  • Melhor qualidade e conservação das características do solo;
  • Menos desmatamento, já que há menos pressão para abertura de novas áreas nativas;
  • Aumento da produção de alimentos, fibras e energia em uma mesma área;
  • Redução da sazonalidade da mão de obra no campo e, consequentemente, menos êxodo rural;
  • Maior estabilidade econômica, com redução do risco via diversificação da produção.

Além desses pontos positivos, outra vantagem da integração produtiva é que ela pode ser aplicada em propriedades rurais de diferentes tamanhos e perfis. Isto torna o modelo de gestão ainda mais versátil e acessível, o que é essencial para trazer mais sustentabilidade ao campo.

Banner-Teste-Gratis-AgriQ-Receituario-Agronomico

Julie Tsukada

Jornalista e Analista de Conteúdo no Conexa, hub de inovação da Aliare.

Deixe um comentário